06 Junho 2017

Parte 3: A tecnologia pode reduzir custos e melhorar a qualidade da educação

Escrito por  Publicado em Blog

Nas Parte 1 deste texto apresentei o argumento que nestes tempos de crise as corporações necessitarão de treinamento de qualidade comprovada a custos menores. E que isso só pode ser alcançado com a adoção e incorporação criteriosa de recursos tecnológicos aos programas educacionais.  Entendendo também que um programa de treinamento é eficaz, tem boa qualidade, se cumpre seus objetivos, se habilita  os alunos a realizar as tarefas para as quais o programa se propunha capacitá-los.

 

Na Parte 2 explorei como a tecnologia pode ser adotada, enfatizando que cursos podem ser presenciais com apoio online, ou podem ser puramente online, conhecidos como educação à distância. Estes últimos podem ser ofertados para consumo individual dos estudantes, ou para turmas, onde a discussão e a troca de opiniões entre os estudantes é essencial.

Tenho um amigo que costuma afirmar que para todo problema complexo existe sempre uma resposta simples. Porem errada...  O que me proponho aqui é desafiar essa máxima e oferecer uma visão simples, mas não simplória, à questão de como e em que condições a tecnologia tem melhorado a qualidade e reduzido custos de programas educacionais. Tentarei focar na essência das questões.

Sobre a qualidade de um programa educacional

Qualidade da educação se reflete, em última análise, na eficácia do processo educacional, em quanto e quão profundo os estudantes aprendem, qual o grau de retenção ao longo do tempo dos conhecimentos adquiridos. A primeira dificuldade que as corporações enfrentam é avaliar essa eficácia. Vejo que existem quatro formas mais comuns de se medir a eficácia de um programa educacional corporativo. Normalmente o que se faz, após a conclusão do programa, é:

  1. Perguntar aos estudantes: você aprendeu? Acha que sabe mais?
  2. Perguntar a chefes e colegas do estudante: ele aprendeu? Ele tem melhor desempenho?
  3. Avaliar o desempenho do estudante durante o curso, com realização de provas e monitoração do comportamento do estudante em atividades dos cursos e na interação com colegas
  4. Medir o desempenho do estudante no trabalho, verificando se ele realiza as atividades a contento, e medindo sua produtividade.

Nenhuma dessas maneiras é perfeita, mas umas podem ser melhores que outras.

Normalmente, adota-se a mais simples de ser aplicada, mesmo que os resultados não sejam confiáveis. Isso é feito, ao final de cada curso, perguntando ao próprio treinando se ele aprendeu ou não. Ou perguntar a seu supervisor. Ou então, realizar uma prova e tomar a nota como indicador do aprendizado. São métricas deficientes, mas fáceis de serem adotadas.

Sou da opinião que a avaliação de desempenho dos estudantes no trabalho pode ser um melhor indicador do aprendizado. Isso requer a adoção de processos objetivos de avaliação de produtividade no ambiente de trabalho que incorporam as métricas de desempenho. Não se pode confiar apenas na opinião de pessoas. Deve-se medir de maneira mais direta que se conseguir.

Na falta de processos de aferição no trabalho, uma boa maneira é monitorar o comportamento do estudante durante todo o curso, além de provas, verificando como resolveu os exercícios propostos, sua dedicação no estudo do material proposto, sua participação em debates com colegas e como realizou as tarefas ou os trabalhos propostos. O processo educacional de boa qualidade pode incorporar múltiplas métricas de comportamento do estudante.

E melhor ainda, num programa educacional com foco profissional, se os cursos forem oferecidos durante o trabalho (on the job training), com a supervisão de professores, com métricas de comportamento. Um tutor acompanhando o aprendiz pode avaliar com melhor precisão seu desenvolvimento, particularmente em tarefas menos operacionais. Nesse caso a avaliação da eficácia do programa é inquestionavelmente melhor.

Sobre os custos dos programas educacionais

Quando se trata de custos é importante que levemos em conta as diferentes parcelas que se somam ao custo total de um programa educacional. Existem duas classes básicas de custos, os de preparação e os que acontecem durante o oferecimento dos cursos.

CUSTO DE PREPARAÇÃO –  envolve todas as atividades preparatórias, desde o planejamento inicial do programa, organização do conteúdo, preparação dos materiais e da infraestrutura, treinamento dos professores, etc.

CUSTO DE OFERECIMENTO – incorpora os custos de veiculação das ofertas do curso, que cresce com a quantidade de estudantes. Esse custo pode incorporar os custos de uso da infraestrutura necessária para aplicar os cursos,  de professores ou tutores, de gestores do processo e de educadores que os apoiam, de locomoção e estadia dos estudantes, do tempo útil gasto pelo estudante no processo de aprendizagem.

O primeiro da lista de custos acontece antes do programa ser oferecido, e ocorre uma única vez, independente de quantas vezes o curso é oferecido. Os custos de oferecimento acontecem com o andamento das ofertas de cada curso e crescem de acordo com a quantidade de ofertas e de de estudantes.

É fácil deduzir-se que tais custos dependem da modalidade do programa educacional. Cursos presenciais têm custos de aplicação mais elevados, enquanto que os cursos online têm os custos de preparação mais elevados.

Isso pode ser traduzido num gráfico, como este apresentado a seguir, onde se vê a comparação dos custos dos cursos conforme a quantidade de alunos o seguem. Esse gráfico reflete o custo total para todos os estudantes. Fosse custo por estudante as curvas seriam decrescentes, mas as posições relativas se manteriam.

artigo 3.1

 

Em baixas quantidades de ofertas e de estudantes, a solução presencial é mais acessível porque os custos de preparação das soluções online são mais elevados.

Em quantidades mais elevadas, as souções online têm custos menores que as soluções presenciais. Obviamente essas comparações só farão sentidos se os cursos tiverem a mesma eficácia com relação ao aprendizado. E lembremo-nos que a solução online ofertadas para estudantes individuais têm sua eficácia restrita a temas operacionais ou introdutórios.

Não existem dados estatísticos ou estudos que permitem a estimação dessas faixas de quantidades. Além do que elas dependem de inúmeros fatores, como tipo e formato de conteúdo, os recursos educacionais adotados, o assunto dos cursos, a dispersão geográfica da empresa, etc.

Apenas para clareza destas ideias, imaginemos que a quantidade de 50 alunos ao longo da vida útil de um curso preparado seja 500 estudantes em 10 ofertas. Assim,  cursos oferecido para 500 ou mais alunos, em média, serão:

  1. Mais econômicos no formato online individual (mas raramente teria a mesma eficácia educacional que outros formatos)
  2. Um pouco mais caro na forma online em turmas, mas de custos menoresque as versões presenciais
  3. Ainda mais onerosos no formato presencial ou híbrido, porém, muito provavelmente de eficácia maior (desde que os professores sejam competentes na sua função)
  4. Mais caro de todos no formato presencial com viagens e estadia.

Agora, finalmente, uma receita... 

Encerrando esta série de textos o que se pode concluir? Algumas coisas: 

  1. Nestes tempos difíceis os clientes corporativos de empresas de treinamento irão valorizar soluções educacionais de eficácia comprovada a custos menores
  2. As empresas de treinamento precisam buscar socorro em recursos tecnológicos para atender à demanda de seus clientes corporativos.
  3. Para cursos sobre assuntos operacionais, ou introdutórios, as empresas de treinamento deveriam adotar modelos puramente online oferecidos no formato individual (e-learning)
  4. Para cursos mais profundos, conceituais, oferecidos para poucas pessoas durante sua vida útil, adotar o modelo híbrido, com aulas ao vivo e apoio online
  5. Para cursos mais profundos, conceituais, oferecidos para quantidades grandes de alunos durante sua vida útil, adotar o modelo puramente online, oferecido para turmas, no formato de aprendizado colaborativo.

Mas lembrem-se, seja o que for o modelo adotado, antes da tecnologia vem a proposta educacional. Esta deve ser muito bem pensada e judiciosamente estabelecida.

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