06 Junho 2017

O novo papel do professor: o de facilitador

Escrito por  Publicado em Blog

Segundo recente artigo de capa da revista inglesa “The Economist”, Eric A.Hanushek da Universidade de Stanford na California demonstrou que os alunos de professores avaliados como muito eficientes aprenderam o equivalente a um ano e meio de matéria. Enquanto que aqueles alunos de professores avaliados como pouco eficientes aprenderam menos de meio ano de matéria (um terço!). Isso, independentemente dos recursos da escola, do nível social dos estudantes e demais fatores que poderiam influenciar o desempenho dos estudantes. [The Economist, junho de 2016]

 

Isto confirma o que a maioria de nós suspeitamos: no ambiente de sala de aula, o professor tem um papel determinante no aprendizado dos alunos.

Uma das consequências diretas da adoção de recursos tecnológicos no apoio a aulas é o questionamento do papel do professor. Questiona-se se o professor deve ou não “ministrar” aulas, no sentido de apresentar o conteúdo, ditar e explicar. A palavra “ditar” é boa, porque ela torna o professor em um ditador perante seus alunos. É isso que deve ser? Em oposição isso, vem a crença de que professor não ensina. É o aluno quem aprende. Por si. E o professor pode ajudar ou atrapalhar.

Os recursos tecnológicos aplicados na educação intensificam e potencializam os dilemas clássicos enfrentados por educadores. Um desses dilemas é o da essência do papel do professor. Afinal, com a evolução da organização social, com as alterações culturais provocadas pela tecnologia, podem os professores continuar exercendo seu papel como o fizeram seus antecessores? E essa reflexão é ainda mais urgente quando se tratam de programas educacionais cem por cento online.

Acredito que, de acordo com a abordagem sócio construtivista do aprendizado, os instrutores em cursos online têm de se adaptar ao papel de facilitadores e não de professores no formato clássico. Enquanto um professor apresenta aos alunos seu entendimento sobre o assunto, o facilitador os ajudariam os alunos a chegarem a seus próprios entendimentos da matéria, estimulando-os a desempenhar um papel ativo no processo de aprendizagem. Principalmente quando se tratar de educação de adultos.

Assim, quando comparado com o papel clássico de um professor, um facilitador precisaria exibir um conjunto de diferentes de habilidades e competências:

  • ele deixaria de comandar e passaria a facilitar o processo educacional;
  • ele deixaria de ensinar a matéria e passaria a apoiar o aprendizado dela pelos estudantes;
  • ele deixaria de dar respostas às dúvidas dos estudantes e passaria a ajudá-los a buscarem respostas e a chegarem às próprias conclusões;
  • ele deixaria de oferecer um monólogo aos estudantes e passaria a manter um diálogo permanente com eles.
  • Ele deixaria de cobrar a realização de tarefas e os motivariam a, por si próprios, a resolverem os desafios apresentados pelo facilitador.

Para isso, o ambiente online, onde o processo educacional acontece, precisa ter dois aspectos essenciais. Em primeiro lugar, o conteúdo acessado pelo estudante precisa ser elaborado de forma a apresentar as ideias e conceitos, porem deixando sempre aberto para o estudante aceitar ou discordar do que está sendo dito. O conteúdo deve enfatizar as dúvidas e dilemas sem tomar partido, encerrar com perguntas e explicitar que o que está sendo afirmado é opinião do autor. Isso incita a uma posição crítica por parte do estudante, o que é fundamental para o aprendizado.

O segundo aspecto é que o ambiente online precisa abrir espaço para a troca de opinião entre estudantes sobre cada conceito apresentado. Um fórum, anexado a cada conteúdo do curso, é um mecanismo recomendado porque ele permite que a conversa entre os estudantes aconteça organizadamente e de maneira assíncrona (em tempos diferentes). Melhor ainda se o ambiente de discussão permita que os estudantes avaliem (gostei / não gostei, ajudou / não ajudou) as opiniões dos seus colegas. Somos seres sociais, aprender juntos é muito mais eficaz.

O ambiente de aprendizagem online e seu conteúdo deve, portanto, fazer par com o facilitador em sua missão. Ele deve ser projetado de forma a apoiar o estudante a desafiar as ideias e as conclusões apresentadas, a discutir e defender suas próprias visões perante colegas e perante o próprio instrutor ou facilitador. O objetivo fundamental do facilitador, do conteúdo do curso e do ambiente online é permitir e estimular o estudante a ter uma participação ativa e crítica sobre o assunto estudado e, também, sobre o processo educacional de que ele participa.

Esse novo papel do professor desafia conceitos antigos e enraizados em nossa cultura.

Eu gostaria de deixar aqui uma pergunta: como poderia a tecnologia ajudar a melhorar o desempenho dos professores mais “fracos”?  Porque parece que em qualquer circunstância, o papel do professor é, e sempre será, preponderante.

 

Edson Fregni
Professor da Escola Politécnica da USP
Sócio Fundador da Sciere Tecnologias Educacionais

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