07 Junho 2017

Ação e imaginação como poderosos recursos de aprendizagem

Escrito por  Publicado em Blog

Eu volto a me referir ao livro “Multiple Pathways to the Student Brain”, da educadora e neurocientista Janet Nay Zadina. Ele se aprofunda no entendimento de como o aprendizado se dá na mente dos estudantes.

 

Embora o foco central da autora seja nos processos educacionais onde o professor exerce seu papel chave, alguns dos pontos apresentados me fez refletir sobre o impacto dessas ideias na preparação de cursos online, sejam eles puramente à distância ou de apoio a aulas presenciais. Eu não pretendo e nem teria a competência para analisar o impacto dessas ideias para a educação apoiada na tecnologia. Compartilho aqui três pequenos desses pontos que servem de ilustração sobre as importantes questões que estamos enfrentando.

Vejam a seguir alguns pontos apresentados por Zadine, em tradução livre do inglês. Compartilho também minhas dúvidas.

1 - Ilustrações contribuem para a fixação dos conceitos

O fornecimento de ilustrações com informação textual resulta, nos alunos, em fixação das ideias apresentadas num grau seis vezes melhor do que quando apresentadas apenas na forma verbal ou textual. […] Novos assuntos deveriam sempre ser introduzidos aos estudantes por recursos visuais. Idealmente, as imagens podem ser apresentadas antes da introdução, seguidas por informações textuais, em um processo que ajuda a memorizar e compreender o material” [Zadina, 2015].

Eu me pergunto por que, então, não se utilizam mais intensamente recursos de educação na forma de histórias em quadrinhos animadas onde a ilustração é a essência da comunicação. Será por que são difíceis de preparar? Seria um instrumento muito infantil? Ou porque existe a reputação negativa desse meio de comunicação, de que seja uma forma simplória e barata de literatura? Suspeito que, se bem-feita, uma história em quadrinhos poderia ser o melhor veículo para introduzir ideias novas.

2 - A imaginação, para o aprendizado, é tão poderosa quanto a realidade

Imagens imaginadas podem ser superiores a palavras. De fato, a mente não consegue distinguir entre imagens mentais e imagens visuais. É certo que nós conhecemos as diferenças entre real e imaginário, mas o efeito na mente é o mesmo” [Zadina, 2015].

A imaginação, certamente, é um poderoso instrumento para o aprendizado. Professores que contam histórias para ilustrar as ideias são muito mais eficientes em sua missão. Os mecanismos online podem, de maneira eficaz, utilizar o recurso da imaginação nos textos, vídeos, animações e mesmo num design criativo dos elementos de aprendizagem utilizados. Pense num curso de física nuclear na forma de uma história, rica em imagens mentais, estimulando a imaginação dos estudantes. Os diálogos de Platão aparentemente tinham esse propósito. Pela imaginação, conquistamos a mente, e talvez o coração, dos estudantes, e depois podemos, de maneira mais formal, aprofundar e formalizar os conceitos.

3 - Demonstrações práticas são o caminho para o aprendizado profundo e duradouro

Se você fizer uma demonstração em sala de aula, você estará criando uma grande rede distribuída de conhecimentos na mente dos alunos. Estudantes estarão ativando processos visuais, auditivos, e talvez motores se eles participarem da experiência, e mais ainda, entrará em jogo processos emocionais e sociais.” [Zadina, 2015].

Acredito que seja essa rede diversificada e extensa de estímulos ativada por demonstrações reais ou simuladas que produzirá na mente dos estudantes o aprendizado desejado, de forma profunda e duradoura. Muito mais do que se o processo educacional estimulasse apenas canais isolados na mente. Assim os recursos de RPG (Role Playing Games) podem ser poderosos na educação, com a participação de grupos de estudantes em temas que estão estudando. Mas, novamente, a dificuldade está na execução, principalmente quando se trata da educação de adultos. Aparentemente ideias que se distanciam da forma como nós estudamos no passado, e como nossos pais e avós estudaram, encontram grandes dificuldades, sólidas resistências e alguns preconceitos.

Reflito sobre essas idéias e me pergunto como elas poderiam ser melhor exploradas em ambientes de aprendizado suportados pela tecnologia, onde estudantes aprendem, interagindo com colegas e professores, navegando por conteúdos e executando atividades conduzidas por programas de software. E posso apenas concluir que estamos, ainda, no início de uma revolução que mudará completamente a face das escolas e demais empresas de educação.

Edson Fregni
Professor da Escola Politécnica da USP
Sócio fundador da Sciere Tecnologias Educacionais

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